Muito se tem falado sobre Bandersnatch – o último episódio da série Black Mirror da Netflix. Lançado dia 28 de dezembro de 2018, o seu caráter inovador provocou uma reação massiva nas redes sociais. Agora que o hype inicial já passou, encontro-me em condições de partilhar algumas considerações.

Para quem não sabe o que é, ou não viu

O novo episódio da série Black Mirror antecipa o lançamento da quinta temporada (que acabou por ser adiada devido às duas horas e meia de cenas editadas e divididas em 250 partes deste último episódio) e introduz o conceito de “Choose your own adventure”. Na teoria, o espetador tem a possibilidade de escolher o que vai acontecer a seguir.

Não é a primeira vez que a Netflix testa este conceito; já o tinha feito antes com episódios para crianças. No entanto, foi a primeira vez que o testou em grande escala e para um público alargado. As características da série permitiram que os seus criadores aceitassem o desafio lançado e criassem uma história que nos faz, uma vez mais, relembrar o niilismo existencial a que já estamos habituados na série, embora neste episódio em particular seja mais evidente.

Stress ao qual não é possível fazer pausa

Primeira escolha do episódio Bandersnatch: cereais Sugar Puffs ou Frosties
Primeira escolha do episódio: Sugar Puffs ou Frosties para pequeno-almoço

É certo que nos primeiros segundos, e ainda mesmo antes do episódio começar, o espetador é alertado para o facto de tomar decisões no decorrer do episódio. No entanto, não estava à espera que a cena continuasse nos poucos segundos que são disponibilizados para tomar a decisão.

Ou seja, no momento em que nos é pedido para fazer uma escolha, para além da pressão que é feita pela barra temporal apresentada, também é impossibilitada a opção de fazer pausa, para que se possa pensar um pouco no que queremos escolher.

Conclusão: ponteiro de stress level na zona vermelha.

Deixa ver o que acontece

Quem me conhece sabe que eu gosto de experimentar e testar as coisas para ver o que acontece. Será que uma dada solução está preparada para uma utilização pouco habitual? Será que consigo partir isto?

Como não podia colocar em pausa, deixei que uma das opções não fosse escolhida por mim. O que aconteceu foi uma seleção automática. Em conversa com um amigo, ao que parece, somos informados disto numa introdução antes do episódio começar. Sinceramente, não reparei e não me é possível confirmar, porque só é permitido visualizar uma vez o pequeno vídeo explicativo

Já? Tantas?

Nos primeiros minutos do episódio são logo bombardeadas várias opções: a escolha de cereais para o pequeno-almoço, a compra de um CD, entre outras, acontece muito cedo e em bastante quantidade. Rapidamente se fica habituado à ideia de se escolher o que vai acontecer a seguir.

Para além disso, as escolhas refletem-se no decorrer do episódio, inclusive bastantes minutos depois, o que me fez pensar no impressionante número de horas de vídeo extras necessário.

Não escolhas essa opção!

Um outro pensamento que me passou pela cabeça foi: e se eu não estivesse a ver o episódio sozinho, quem é que decidia? Seria influenciado pela(s) outra(s) pessoa(s)? E se não houvesse um acordo? Com tão pouco tempo para escolher, o stress seria certamente maior e a experiência bastante diferente. “Não escolhas essa!”, seria certamente uma das frases que se ouviriam.

É, portanto, este novo modo de ver televisão uma experiência individual? Que formas de ver este tipo de conteúdo em grupo serão implementadas? Questões pertinentes que certamente serão alvo de estudo nos próximos tempos.

Efeito IKEA

O efeito IKEA, muito resumidamente, parte da premissa de que algo que é parcialmente construído por nós ganha um valor maior do que realmente tem. É o que acontece com muitos produtos da empresa sueca IKEA, a qual dá nome ao fenómeno, em que os clientes são incentivados a montar a mobília que compram. Quantos de nós não têm orgulho na estante lá de casa por termos decifrado as instruções e a termos montado?

O mesmo acontece neste episódio. O facto de podermos escolher o que acontece, faz-nos ter um sentimento de pertença. O episódio passar a ser um bocadinho nosso

Referral marketing com nova nuance

Como vi o episódio logo nas primeiras horas em que foi lançado, deu-se a coincidência de estar a ver ao mesmo tempo que outros amigos. O entusiasmo com que se via o episódio era notório, mas ainda mais notório que isso era a curiosidade de saber que opções tinham os meus amigos escolhido.

Se por um lado é mais um motivo para referral marketing (passamos do comum: “viste aquela parte mesmo espetacular em que X fez Y?” para “o que escolheste quando X se deparou com a situação Y”?), por outro, aquilo que eu organicamente fiz pode ser evoluído para uma funcionalidade: após a escolha de uma dada opção, na minha televisão podem muito bem aparecer as opções escolhidas pelas pessoas que eu conheço.

Publicidade à Netflix

A uma dada altura, é-nos colocada a hipótese de escolher a Netflix como resposta. Ao ser selecionada, é relembrada a sua existência de uma forma brilhante. Não quero entrar em muito detalhe, porque não é objetivo deste artigo fazer spoil do episódio, mas o tempo narrado é anterior ao da existência da empresa, o que torna a situação toda muito interessante e estratégica.

Não foi tudo perfeito

Houve coisas que me chatearam. Uma delas foi a existência de momentos em que só uma opção aparecia. Na verdade não era uma escolha, portanto, qual a necessidade? Terá que ver com o tema do episódio? Na altura não entendi, mas agora que olho para trás, talvez possa ser isso.

Outro momento que me fez revirar os olhos foi quando me pediam para mudar a minha hipótese. Ou seja, após ter escolhido um caminho, se esse fosse um caminho sem saída, a narrativa forçava-me a voltar atrás e fazer uma opção diferente da que inicialmente tinha. Surgiu-me o pensamento de que este voltar atrás possa ser explicado pela existência de realidades paralelas. A sensação com que se fica também é que há caminhos proibidos e que, por muito que tentemos tomar um dado rumo, acabamos sempre por ter de seguir outro.

Ainda mais para a frente o episódio parece ganhar vida e começa a não cumprir as nossas ordens. Mais uma vez, é frustrante, porque no início estávamos habituados a que tudo fosse cumprido. Por outro lado, vai muito de encontro com a narrativa, o que torna este “defeito” numa interessante experiência, a qual argumenta a favor da genialidade dos seus criadores.

No final, chega-se a um ponto em que se acaba por ver todas as hipóteses de fecho do episódio, se tivermos curiosidade, o que se pode tornar cansativo uma vez que muita coisa é repetida e o episódio já vai longo.

Coisas que se encontram na web

Nos créditos é escondido um easter egg num som muito estranho. Rapidamente no Reddit apareceu a resolução do mistério: estava escondido um QR code que apontava para um site do filme. O processo de resolução é explicado por um YouTuber neste vídeo:

Também no Reddit é possível encontrar um flowchart com todas as hipóteses e caminhos possíveis que foram mapeados pelos espetadores.

Muito recentemente, foi revelado num tweet pela Netflix uma parte escondida que apenas é desbloqueada pela escolha consecutiva de uma opção específica:

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